SEG, 29 DE AGOSTO DE 2011 14:24POR: CNBB
Dom
Murilo S.R. Krieger, scj
Arcebispo
de São Salvador da Bahia - BA
Seu rosto era um
espelho diferente, já que refletia todos os tempos: o passado tinha gravado
nele sulcos profundos, denunciadores de dias difíceis e de sofrimento intenso;
o futuro era antecipado pela insegurança e pelo medo, estampados em seu olhar;
o presente estava sintetizado no movimento de seus lábios, a pedir: “Uma
esmolinha, por amor de Deus!”
Uma esmolinha!
Qual seria a história desta mulher, quase só pele e ossos, envelhecida tão
precocemente? Seria possível reconstituir sua infância? Que sonhos teriam
povoado sua juventude? Que histórias teria para nos contar? Depois de tudo o
que passou, enfrentou e viveu, o que pensa da vida? O que espera da sociedade?
Não seria
possível, agora, fazer-lhe muitas perguntas. O problema que enfrentava era
marcado pela urgência, melhor, pela sobrevivência. Não tinha tempo nem
condições para considerações sociológicas, filosóficas ou metafísicas. O máximo
que poderia fazer seria recordar as repostas que seu pedido tivera ao longo do
dia. Não conseguiria, contudo, adivinhar o que não lhe foi dito, mas apenas
expresso nos olhares de piedade, indiferença ou repulsa.
Diante de sua
pobreza, cada qual se definiu, mesmo que só em pensamento: “Eu não ajudo quem
pede esmola”; “Aí está o resultado de uma sociedade estruturada sobre a
injustiça”; “Onde está o dinheiro de nossos impostos?”; “Por que o Governo não
faz nada por pessoas assim?”; “Meu Deus, que rosto de sofrimento!”; “O que será
que posso fazer?” etc.
Conseguimos
resgatar espaçonaves perdidas no espaço, obter progressos consideráveis na
pesquisas do câncer e desenvolver tipos de sementes adaptadas às condições
climáticas de cada região. Novos Lázaros continuam, porém, percorrendo nossas
estradas, estendendo suas mãos para matar a fome com o que cai de nossas mesas
(cf. Lc 16,19-31).
O que fazemos
pelos pobres? Houve épocas que foram dominadas por obras assistenciais.
Tratava-se de “dar o peixe” aos necessitados, mesmo porque a fome exige
respostas rápidas. Depois, nasceram iniciativas visando a promoção humana; o
importante, dizia-se, é “ensinar a pescar”, para evitar a eterna dependência.
Descobrimos, porém, que isso já não basta. É toda uma renovação das estruturas
de nossa sociedade que se torna necessária, para que o processo de
empobrecimento deixe de fabricar novos miseráveis. Enquanto isso, conforme o
caso concreto que nos desafia, esta ou aquela atitude poderá ser a mais
oportuna.
São muitos os
pobres e necessitados que nos cercam. Há pobres no campo econômico: famintos,
sem casa ou sem saúde, desempregados, sem meios para viver com dignidade. Há
pobres no campo social: marginalizados por inúmeras razões, migrantes,
analfabetos. Há pobres na consistência física ou moral: deficientes,
alcoólatras, drogados, prostitutas, debilitados psiquicamente. Há pobres de
amor: idosos desprezados, crianças abandonadas, prisioneiros, famílias
desfeitas ou desagregadas. Há pobres de valores autênticos: escravos do prazer,
do dinheiro, do poder.
A mão que se
estende em nossa direção é um grito de alerta: alguém, em algum lugar, precisa
de nossa ajuda material e de nosso tempo, de nossa dedicação e de nosso amor.
Poderemos nos omitir, refugiando-nos em desculpas; ou, então, poderemos nos
unir a todos os que se inquietam com os olhares que atravessam o tempo e as distâncias
para nos pedir: “Uma esmolinha, por amor de Deus!”
Em nossa cidade,
região e Estado, há inúmeras iniciativas em favor de crianças pobres; de mães
grávidas abandonadas pelos maridos; de adolescentes que muito cedo são motivo
de preocupação; ou de idosos sem família e sem amor. Interessar-se por essas
iniciativas ou, inclusive, oferecer-se como voluntário, poderá ser o primeiro
passo para a descoberta de novas respostas para os problemas sociais que nos
desafiam.
Descobriremos,
então, que somos ricos de esperança porque alguém, um dia, estendeu sua mão em
nossa direção, levantou-nos e nos acolheu como irmãos, dando-nos dignidade e
razões para viver. Não será esta uma indicação para fazermos o mesmo?
Publicado
originalmente: http://www.cnbb.org.br/site/