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terça-feira, 13 de setembro de 2016

Palmas, vereadores!

Dom Pedro Brito Guimarães
Arcebispo de Palmas (TO)


Estamos em contagem regressiva para as eleições municipais. Faz tempo que não faço isto, mas hoje me veio a ideia e me deu vontade de abrir o dicionário, impresso, digital, eletrônico e virtual, para rememorar e fazer entender, mais e melhor: para que se quer ser vereador? Qual é mesma a função de um vereador? Por que é tão propagado e pouco entendido? Por que é tão desejado e pouco exercido? Por que é tão endeusado e pouco cobrado? É realmente para o bem comum ou é pela crise de emprego que assola o Brasil que muitos querem ser vereadores? Por que será então? A pergunta que não pode deixar de ser feita e de ser respondida é novamente esta: para que se quer ser vereador? Lembrado, antes de tudo, que a palavra “candidato” significa “cândido”, “limpo”, “puro”, “sem mancha”, “sem segunda intenção e “sem ambiguidade”. 

O governo de um município é subdividido em dois Poderes, distintos e complementares: o Poder Legislativo, desempenhado pelos vereadores, e o Poder Executivo, desempenhado pelo prefeito. Há controvérsia no entendimento da origem da palavra portuguesa “vereador”. Uma das explicações possíveis é que “vereador” vem do grego antigo “verea”(+ dor) e significa vigiar, verificar, orientar e acompanhar a vereda e o caminho que a gestão municipal deve trilhar. O vereador é, portanto, um agente-gestor público qualificado, um membro, eleito pelo voto popular, da Câmara Municipal. E, como agente-gestor, representa o cidadão no trato das coisas públicas do município. As palavras mais usadas para definir as suas quatro funções básicas, descritas com letras garrafais, são as seguintes: “legislar”, “fiscalizar”, “assessorar” e “julgar” os procedimentos da gestão municipal. É tudo isto, ou, somente isto. Mais do que isto não é função de vereador. 
A cidade não é uma entidade fantasma, impessoal, invisível, insensível, amorfa, incolor e indolor. É uma célula viva e humana, tanto quanto os seus humanos munícipes e cidadãos. Segundo o padre João Batista Libânio, a cidade possui seis lógicas: as lógicas do espaço, do centro e da periferia, a serem cuidados, construídos, habitados e preservados; as lógicas do tempo e do lazer de seus habitantes; as lógicas da cultura, da multiculturalidade e do pluralismo religioso; as lógicas da participação, da mobilidade e da mobilização; as lógicas das crises éticas, dos valores e dos bens humanos, artísticos e culturais; e as lógicas do trabalho e do poder. 
Diferentemente dos outros seres vivos, o ser humano foi erguendo e alargando sua casa, juntando-se com as casas dos vizinhos, dando origem as ruas, vilas e cidades. E, com isto, foram criadas as regras de convivências e de relacionamentos humanos, recíprocos, maduros, respeitosos, legais e leais. A Bíblia fala fluentemente de duas cidades figurativas e simbólicas: Babilônia, símbolos da morada do mau, dos desprezíveis, das perversidades, das mazelas e das depravações humanas; e Jerusalém, símbolos da morada de Deus, da beleza, da harmonia, da justiça e da paz. Babilônia não existe mais, se autodestruiu. Jerusalém ainda sobrevive, mesmo com todos os problemas. Santo Agostinho chama estes dois tipos de “cidade dos homens” e “cidade de Deus”. É que toda cidade tem o seu “para quê”. Palmas também tem, no seu design, o seu “para quê”. Para quê, Palmas? Palmas nasceu politicamente sob um signo cristão: “São João de Palmas”. A cruz de Cristo e um simples altar foram transplantados no coração de Palmas, nas encruzilhadas dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, para dizer que Deus ama esta cidade! 
Portanto, no fogo cruzado das tensões porque passa o Brasil, decorrentes das crises política, social, econômica e ética, estas eleições municipais, que são as mais próximas das pessoas e de seus problemas, se revestem de um significado profético. São eleições que batem às nossas portas, que têm a ver com saúde, educação, segurança, moradia, trabalho, água, luz, saneamento básico, esgotamento sanitário, mobilidade, sustentabilidade... São eleições caseiras: da comida no prato e da água no copo.
Muito cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a nós disfarçados de ovelhas, comumente se revestem de cordeiros, mas por dentro são lobos ferozes. Toda árvore boa dá fruto bom e toda árvore doente dá fruto ruim (Mt 7,15-18). Por seus frutos eles serão reconhecidos. Por isto, é preciso votar em candidato em que se conheça a sua carteira de identidade. Opções não faltarão e nem também pessoas com este perfil. Basta querer vê-las. Para isto, é preciso pescar e garimpar. Parece que não, mas a cidade tem seu impacto sobre a nossa vida e a nossa fé, e também vive sob o impacto desta mesma fé. O cristão deve exercer na sua cidade a sua vocação profética e missionária, ativas e criativas: perceber o impacto da cidade sobre a sua fé, e sob o impacto da fé, questionar a própria cidade. Crer na cidade não é fácil, não porque falte a graça de Deus, mas porque faltam menos solicitações para se crer: solidão, distâncias, aprisionamento, portas fechadas, indiferença, individualismo, secularismo, relativismo, diluição dos valores éticos e cristãos, reciprocidade, solidariedade... A fé interpela a cidade, seus poderes e seus valores. Poder para Jesus é sempre serviço (Jo 13,12-17; Mt 20,25-28). O poder facilmente seduz, escraviza e domina. Eleição é escolha de prioridades entre pares que se parecem iguais. Esta missão é possível de ser realizada, se formos mais proativos, mais profetas e mais politizados. Então, vote consciente. Bom voto para os nossos vereadores, pois, diz o velho ditado: “voto não tem preço, tem conseqüências!”
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