Há palavras carregadas de sabedoria e inteligência que edificam tanto quem as pronuncia quanto quem as ouve. Há palavras doces e animadoras que ficam gravadas para sempre nos corações. Há palavras carinhosas que dão segurança e fazem crescer. Mas, há também palavras vazias e inúteis que poderiam não ser pronunciadas. E, infelizmente, há palavras ciumentas, mentirosas, agressivas, frias, enganadoras, interesseiras, carregadas de ódio, destruidoras.
Em todos os lugares e circunstâncias da vida as palavras pronunciadas ou escritas são presença e significado. Transmitem conteúdos, mas também revelam a qualidade interior de quem as utiliza. Se ditas cara a cara tem uma intensidade, mas à distância podem mudar de tonalidade. Em algumas circunstâncias podem até mesmo perder sua conexão com a verdade, a realidade, o respeito e o compromisso com o bem, servindo à decepção, ao sofrimento e à tristeza.
Parece que esse seja o caso do uso das palavras nas redes sociais, onde transitam com facilidade e longo alcance, mas nem sempre de forma construtiva. A quase inexistência de leis para o uso desses meios comunicativos populares e altamente acessíveis deixa aberta uma brecha para que a enxurrada das interioridades humanas venha fora por meio das palavras, que neste lugar tornam-se mais perigosas para quem as escreve do que para os que as leem.
O que mais causa espanto é ver o nome de pessoas de participação eclesial e, portanto, de comprovada vivência cristã, “assinando” ou compartilhando textos cujas palavras propagam inverdades, causam sensacionalismo, destilam ódio e semeiam divisão.
Rejeitando as práticas de pureza ritual dos fariseus e as suas consequências separatistas, Jesus disse que “nada que, de fora, entra na pessoa pode torna-la impura. O que sai da pessoa é que a torna impura. (…) Pois é de dentro, do coração humano, que saem as más intenções: imoralidade sexual, roubos, homicídios, adultérios, ambições desmedidas, perversidades; fraude, devassidão, inveja, calúnia, orgulho e insensatez” (cf. Mc 7, 15-23). Com essas palavras Ele alertou os seus ouvintes a cuidarem também do uso das palavras, pois o que está dentro do coração do ser humano, na maior parte das vezes, vem fora por meio delas.
O Evangelho incentiva os seus leitores ao emprego dos sentimentos e atitudes próprios dos seguidores de Jesus.
Não se pode negar que nas relações familiares e cotidianas existem motivos para tristeza, desânimo, lágrimas, desafios a serem superados e que frente a isso não é possível ficar indiferente.
O Brasil passa por uma grave crise política, econômica e social, diante da qual as pessoas não devem permanecer caladas e passivas.
De fato há no mundo muitos males, frutos da desonestidade, da ganância e da irresponsabilidade, que afligem as pessoas e precisam ser combatidos e vencidos com justiça.
Mas, para enfrentar essas questões não são as palavras que devem ser utilizadas em primeiro lugar e sim os gestos e as atitudes novas. Contudo, quando as palavras também forem úteis a esse objetivo, não podem ser usadas de modo irresponsável, inconsequente, mentiroso e odioso pois só tornarão as coisas mais graves e difíceis.
As palavras sábias, bem escolhidas e combinadas, carregadas de esperança, ternura e poesia são bálsamo que cura, energia que transforma, vida que renova. Tais palavras são geradas no silêncio, na escuta, na leitura, na reflexão e na oração e, somente deste modo, portadoras dos nobres sentimentos e desejos que habitam o mais profundo dos seres humanos.
http://www.diocese-sjc.org.br/cuidar-do-uso-das-palavras/