A
realidade da Providência
A
Providência é o atributo divino que preside ao governo de todas as
coisas, fazendo que cada qual se encaminhe para o respectivo fim, ou
seja, para Deus.
Deus
é o Autor do mundo e do homem. Neste caso, tendo criado em vista de
determinado fim, Ele acompanha as suas criaturas até a consecução
desse fim.
Portanto,
a solicitude do Senhor para com as criaturas se concilia com as
tragédias e sofrimentos, bem como a existência do mal ou de pessoas
más, no mundo.
Providência
Divina e felicidade humana
Antes
de tudo, é bom recordar, sumariamente, em que consiste o mal.
Distingue-se
assim:
o
mal ou a carência na ordem física: o mal físico (doenças ou
deficiência);
o
mal ou a carência na ordem moral: o mal moral. Consiste na falta de
harmonia de determinado ato humano com o seu Fim Supremo ou com
Deus. Todo ato oposto à Lei de Deus – portanto, o pecado – é
um mal moral.
Deus
outorgou, originariamente, a cada criatura o grau de perfeição
correspondente à sua essência. O mal entrou no mundo por obra do
homem, que por isso foi castigado.
O
homem abusou da faculdade de livre arbítrio: em vez de a dirigir
para Deus, Bem Supremo, o primeiro homem a dirigiu conscientemente
para uma criatura.
Rompendo
a harmonia da natureza humana com Deus, o primeiro pai fez que se
rompesse a harmonia de sua alma (inteligência, vontade e
sensibilidade) e dos elementos inferiores materiais existentes dentro
do homem e em torno dele.
Daí
a ignorância, os erros da inteligência, os transtornos
psicológicos, as más tendências, bem como os desgastes de saúde,
a dor e a morte que todo homem padece; daí também as calamidades
naturais, como secas, enchentes, incêndios, etc.
De
todo o mal (moral e físico), assim desencadeado, a Sabedoria Divina
está isenta de culpa. A raiz das desgraças é o mau uso da
liberdade humana, faculdade que Deus outorgou ao homem para o
dignificar, mas que este usou indevidamente.
Deus
Nosso Senhor não quis entravar nem canalizar o uso dessa liberdade,
pois isto seria contraditório e indigno do Todo-Poderoso. Deus devia
ter, e de fato tinha, recursos suficientes para não permitir que o
mal vencesse o bem, sem que fosse necessário cercear a liberdade
humana.
Justamente
tais recursos constituem o objetivo em torno do qual se exerce a
Providência Divina…
Deus
jamais haveria permitido à criatura humana desencadear o mal neste
mundo, se Ele não tivesse a Bondade, a Sabedoria e o Poder
necessários para fazer dos males a ocasião de bens, e bens ainda
maiores!
Eis
como Santo Agostinho exprime essa verdade: «O Deus Todo-Poderoso….
sendo sumamente bom, de modo nenhum permitiria aparecesse algum mal
em suas obras, se Ele não tivesse o poder e a bondade para fazer
sair do próprio mal o bem» (Enchiridion XI).
Qual
os tipos de bens que Deus Nosso Senhor pode retirar a partir dos
males que as suas criaturas acarretam no mundo?
Em
primeiro lugar, observa-se que não são bens materiais (saúde,
dinheiro, emprego, isenção de tribulações, etc.), porque tais
valores são muito relativos; satisfazem apenas a uma parte do ser
humano, ou seja, ao corpo. Na verdade, o homem só atinge a sua
verdadeira grandeza mediante o desenvolvimento da sua personalidade,
a qual é marcada principalmente pelos valores da alma. Aliás, não
raro os bens temporais causam detrimento, pois embotam a alma,
fazendo-lhe não perceber ou esquecer que há bens maiores: os bens
da vida eterna. Em lugar de favorecer a formação da personalidade
humana, que é essencialmente voltada para o infinito, tendem a
fechá-la na mesquinhez e no amor próprio. É, antes, evitando, por
amor de Deus, o afeto desregrado a si e às criaturas, que o homem
se engrandece.
Por
conseguinte, os bens que a Providência Divina visa (se não
exclusivamente, ao menos primariamente), são os bens da alma e da
vida eterna, pois é somente mediante estes que a criatura humana se
torna perfeita.
Ou
seja, se santifica. A concessão dos bens eternos vem a ser assim o
critério primário, embora não exclusivo, para se aquilatar o
acerto da Providência Divina.
Enquanto
a Sabedoria de Deus vai oferecendo ao homem os meios de santificação
ou de consecução da felicidade eterna, ela não lhe nega, em doses
oportunas, os bens temporais (saúde, solução de crise financeira,
boa fama…); o bom católico, porém, deve ter consciência de que
esses valores temporais são consolações passageiras (devidas ao
fato de sermos corpo e alma, e não unicamente alma). São
consolações destinadas apenas a alentar o homem mortal na obtenção
do que é Eterno.
Nosso
Senhor Jesus Cristo propôs a seus discípulos não propriamente
consolos e compensações temporais. Convidou-os a «abraçar a cruz
e segui-Lo abnegadamente» (cf. Mt 16,24s); este é certamente um dos
traços marcantes de qualquer ideal de vida cristã; a fidelidade a
Deus não garante necessariamente felicidade terrestre.
As
graças temporais não hão de faltar ao católico, mas ser-lhe-ão
dadas em função de bens maiores. Em consequência, uma vida que,
humanamente falando, seja pouco afagada por bens materiais, pode, não
obstante, estar perfeitamente nos planos da Providência Divina.
É
perfeitamente lícito uma pessoa desejar bens temporais (a riqueza, a
compra de um imóvel, a obtenção de um emprego ou de um cargo, a
cura de uma doença, a sobrevivência de esposo ou filho…), na
medida em que corresponde a um progresso na vida e favoreça a
salvação de sua alma ou pelo menos não constitua um entrave nesse
sentido. Considerando-se sob esse aspecto, o discípulo de Nosso
Senhor Jesus Cristo pode pedi-los ao Pai do céu. Mas não deve fazer
da obtenção dos mesmos a “pedra de toque” para julgar a
Providência Divina. Mal sabemos o que, na verdade, nos convém. Uma
pessoa verdadeiramente piedosa deve ter presente que não é o centro
do mundo, de modo que tudo deva acontecer de acordo com o que ela
julga oportuno. O critério que há de nortear nossos juízos e
desejos é sempre o seguinte: «Será que, mediante a consecução de
tal ou tal bem temporal, me tornarei homem mais perfeito, menos
apegado a mim, com mais amor de Deus e desejo da vida eterna?».
É
certamente este o critério que a Providência Divina aplica ao
distribuir os seus bens, denegando por vezes o que nos parece
vantajoso e permitindo o que nos causa repulsa momentânea. A
situação do católico que nesta vida temporal julga tudo à luz da
eternidade pode muito bem ser ilustrada por duas imagens que o
escritor Antonin Eymieu propõe: “A vida neste mundo é apenas um
começo, não é o todo. É um meio, e não o fim. O plano da
Providência não consiste em colocar o céu sobre a terra, mas em
dar aos homens sobre a terra os meios de merecer o céu”. “Tal é
o ponto de vista de Deus. Para compreender algo da Providência, é
preciso ver o mundo nesta perspectiva. Não entenderemos coisa alguma
se considerarmos essa grande questão apenas em seus aspectos
laterais, em seus pormenores, pormenores que impedem a visão do
conjunto, como uma árvore diante dos olhos de alguém pode encobrir
a floresta. Muito menos nos havemos de deter sobre o mau aspecto da
questão, ou seja, sobre o ponto de vista terrestre; a realidade
apareceria então como um tapete visto às avessas. Se consideramos o
mundo presente independentemente do mundo futuro, ele se torna
incompreensível”. Portanto, quem considera a história deste mundo
do ponto de vista meramente humano ou terrestre, é facilmente levado
a julgá-la um absurdo, em que tudo parece frustrado e fracassado.
A
eternidade, e não o tempo, eis o ponto de referência do modo de
pensar e desejar do autêntico cristão.
Dessa
forma, uma perda temporal, uma calamidade particular ou pública,
pode nos aparecer como desastres que desconcertam. Não é assim,
porém, que Deus os julga.
Ao
contrário do que comumente se pensa, a experiência ensina que, em
vista do egoísmo congênito do homem, a dor é a escola de
engrandecimento da criatura. A Providência, por isto, não a
dispensa (dado que Ela queira proceder ordenadamente: ou sem
milagres).
Deus
nem sempre recompensa a virtude com a longevidade, nem pune o pecado
com a morte prematura ou trágica. A justa sanção se exerce
primariamente no plano espiritual, que é o plano onde se situam os
verdadeiros valores.
Deus
não precisa necessariamente de tal ou tal instrumento humano para
realizar seus desígnios. Ele pode permitir a morte aparentemente
precoce de benemérito personagem sem que com isto o plano da
Providência sofra o mínimo detrimento. Nosso Senhor é assaz
poderoso para suprir, como de fato supre, por outra via. A
responsabilidade do reino de Deus, em última análise, é d’Ele!
Quanto à existência, às vezes prolongada, dos homens maus neste
mundo, S. Agostinho apresenta as seguintes considerações:
“Deus
se serve dos homens maus, não atendendo à má intenção dos
mesmos, mas à reta intenção do próprio Deus”. Na verdade, assim
como os maus fazem mau uso da natureza humana, ou seja, da obra boa
de Deus, assim o Deus bom faz uso bom até mesmo das obras más dos
homens iníquos, a fim de que de modo nenhum fiquem frustrados os
desígnios do Todo-Poderoso.
Se
Ele, bom como é, não tivesse o poder de fazer servir os maus à
causa da justiça e da bondade, de modo nenhum permitiria que
nascessem ou vivessem. Tais homens, Deus não os fez maus; Ele
simplesmente lhes deu a natureza humana.
Criou
a natureza de cada ser, mas não criou os pecados, que são algo de
contrário à natureza. “É verdade que em sua presciência Ele não
podia ignorar que tais indivíduos haviam de se tornar maus, contudo,
assim como sabia quais os males que eles haviam de cometer, sabia
também quais os bens que desses males Ele havia de tirar” (serm.
214,3).
As
leis da natureza são geralmente respeitadas e aproveitadas pela
Providência Divina. Isto, porém, não quer dizer que sejam
inflexíveis. Deus as dobra ao seu poder, produzindo milagres
segundo seus sábios desígnios. Os portentos, porém, supõem uma
finalidade grande e importante a ser atingida.
Fonte:
aascj.or.br
aascj.org.br/home/2013/09/12/providencia-divina-e-desgracas-humanas/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+boletim-ultima-semana+%28Boletim+Sagrado+Cora%C3%A7%C3%A3o%29