Dando continuidade ao tema da Iniciação Cristã,
refletiremos sobre o conceito de Iniciação e qual a originalidade da Iniciação
Cristã. Já pensamos sobre isso? Não apenas a religião católica realiza um
processo de Iniciação. Ele está presente em muitas expressões religiosas e,
como conceito e identidade, tem muitas semelhanças. Vejamos juntos um pouco
deste saber para nos ajudar a caminhar em nossos processos de Iniciação Cristã.
Os processos de iniciação, nas muitas
expressões religiosas, demarcam uma etapa: de introdução progressiva no caminho religioso, aprendendo passo a
passo a dinâmica própria da religião. O
termo ‘iniciação’ deriva do latim in-eo, do
initium, que significa ‘entrar
dentro’. Remete-nos, portanto, aos ritos através dos quais a pessoa “entra” na comunidade e passa a participar da dinâmica
religiosa na qual outras pessoas já participam.
Um importante estudioso das religiões, Mircea
Eliade, afirma que a iniciação é um fundamento para a humanização. Ele diz:
“para fazer-se humano é necessário assumir as dimensões da existência humana”. Ele
está se referindo à importância dos ritos de passagem, como nascimentos,
crises, novos nascimentos, enfim, estágios de reelaboração existencial. Ao
longo deste processo, a pessoa vai configurando seu ser, suas escolhas, sua
orientação existencial. Além disso, os ritos acontecem dentro das comunidades.
Tornam-se experiências pessoais e
comunitárias, conferindo identidade ao iniciado e à comunidade, numa relação de
comunicação e comunhão fecundas.
Podemos observar que, em muitas famílias e
comunidades, nem sempre os ritos de iniciação estão presentes. Há uma crise nos processos iniciáticos, uma
desvalorização dos símbolos, das tradições. Esta crise compromete a identidade
pessoal e a pertença comunitária. Ou seja, a configuração da pessoa, sua
identidade, sua elaboração existencial e sua pertença familiar, comunitária,
social, também sofrem com esta crise. É comum encontrarmos pessoas que, mesmo
na fase adulta, ainda não se compreendem, não fazem as escolhas fundamentais,
não sabem como orientar sua vida, não participam da vida familiar nem
comunitária, não se envolvem com as questões coletivas.
Retomando para nosso caminho prioritário, a
Iniciação Cristã, também aqui podemos perceber a necessidade do resgate dos
processos que conduzirão a pessoa a tornar-se humana, cristã, vivendo como
filha de Deus e dando testemunho desta identidade em sua comunidade de pertença
e na humanidade. Na Igreja antiga, dos séculos III e IV, compreendia-se que ‘tornar-se cristão’ é um caminho, como uma
progressiva introdução à vida nova revelada e oferecida em Jesus Cristo. É
Tertuliano, padre da Igreja no século III quem nos fala desta sabedoria que
animou a ação missionária e pastoral da Igreja dos primeiros tempos e deve nos
animar ainda hoje: “Fiunt non nascuntur
christiani” – não se nasce cristão,
chega-se a ser”.
A Iniciação Cristã não acontece de forma
repentina ou de uma vez, como se todo o caminho de seguimento de Jesus pudesse
ser experimentado e apreendido em uma única etapa. A comunidade cristã, Povo de
Deus a caminho, persevera no diálogo com Deus, procurando ser atenta e se
deixar conduzir por este encontro por toda a trajetória da humanidade. Assim é
também para as pessoas e para as comunidades de nosso tempo.
A fé não é adquirida automaticamente. Demanda
um processo, uma aprendizagem prolongada e identificadora, um itinerário
marcado pela iniciação. É um caminho mistagógico, é entrada no mistério de
Deus, sem deixar de viver a existência humana.
Neste itinerário gostaríamos de destacar duas dimensões essenciais: o caminho
pessoal e a experiência comunitária. As duas dimensões estão ligadas e
afetam-se mutuamente. Não são caminhadas distintas ou em etapas sucessivas,
como muitas vezes são avaliadas e desenvolvidas pastoralmente. A iniciação se
dá na comunidade e não fora dela. A comunidade religiosa é uma comunidade de
iniciados que caminham juntos, e assim procedem na escuta dos textos sagrados e
na sua hermenêutica.
Dionisio Borobio, um renomado orientador dos
processos de catequese, nos diz que o próprio termo ‘iniciação’ indica quatro
elementos constitutivos deste processo e que dialogam entre si:
1.
O mistério - algo que deve
ser conhecido, uma realidade de caráter transcendente, à qual se adentra e da
qual se torna participante;
2.
A mediação - o meio de comunicação, um conjunto de
símbolos, que é a ponte entre o mistério e os que serão iniciados;
3.
Os iniciados no mistério - um grupo com
agentes de iniciação que orientem o processo;
4.
O iniciante - alguém que não está iniciado e se abre para
essa experiência.
Estes elementos não possuem hierarquia ou
ordem de desenvolvimento na iniciação religiosa, mas estabelecem uma relação
dialógica permanente e processual. E qual a originalidade destes elementos na
Iniciação Cristã? Vejamos quais são e o que possuem de específico e também de interdependência
entre eles.
No caso da Iniciação Cristã estes elementos
são identificados como:
1. O mistério Pascal
e seus conteúdos bíblicos e vivenciais;
2. Os ritos e
celebrações sacramentais;
3. A comunidade
eclesial e o mistagogo/catequista;
4.
O neófito/ iniciante.
Não deixemos de observar o ponto de encontro
fundamental: o princípio, o meio e o fim
da Iniciação Cristã coincidem, é a participação no mistério pascal de Cristo. Essa é sua principal característica,
diríamos, seu eixo e motor único. O mistério pascal de Cristo não é um elemento
mítico, nem mesmo uma doutrina ou uma construção científica, religiosa ou ideológica,
mas é uma pessoa.
Os ritos são também
mediações na Iniciação Cristã, mas não são simplesmente um conjunto de
símbolos, e também não são estratégias pedagógicas. São ritos sacramentais.
Com relação à comunidade dos iniciados,
o espaço vital é a Igreja, sacramento de Jesus Cristo no mundo. A comunidade
eclesial deve ser uma presença sacramental ativa, decisiva para a Iniciação Cristã.
Nela, o neófito e a comunidade experimentam a força renovadora de Cristo
ressuscitado e do Espírito que faz novas todas as coisas.
Essa comunhão eclesial tem caráter
mistagógico, no entanto, há pessoas que assumem especialmente esta missão,
orientando a iniciação cristã. São os mistagogos da comunidade. São
aqueles que assumem pessoalmente a tarefa de conduzir pela mão o catecúmeno,
para que descubra sua forma pessoal de seguir ao Senhor.
O sujeito da Iniciação Cristã é a
pessoa humana. É uma experiência pessoal, relacional e livre. A
iniciativa vem de Deus mesmo, de sua misteriosa ação na vida de cada ser
humano. O neófito deve ser acolhido pessoalmente, no que tem de particular, de
especial. O mistagogo vai conduzir uma experiência de fé, de confiança, de
entrega, que respeite o processo pessoal.
Como vimos, a Iniciação Cristã é processo
experimentado não apenas por cada iniciante, mas por toda a comunidade a
caminho. A comunidade evangeliza e é evangelizada, participa da trajetória do
seguimento de Jesus e torna-se testemunha da mesma fé. Esta experiência renova
os laços de fraternidade e de comunhão na comunidade e, ao mesmo tempo, realiza
nela o mandado missionário, do qual se torna testemunha de uma reflexão
amadurecida e de edificação do Reino de Deus.
Para refletir:
1. Qual a importância dos ritos de Iniciação
para as pessoas e para a sociedade?
2. Qual a originalidade da Iniciação Cristã?
Como podemos articular os 4
elementos da Iniciação Cristã: o mistério Pascal, os ritos e celebrações, a
comunidade e os mistagogos e os iniciantes?
Fonte: http://www.cnbb.org.br/component/docman/cat_view/236-liturgia-em-mutirao-iii