A mesma história, contada por mais de uma pessoa, costuma apresentar
ênfase em aspectos diversos. Muitas das divergências entre cristãos são
fruto de se ter uma perspectiva diferente ao ver a mesma coisa,
destacando ângulos que acabaram se tornando básicos na tradição de cada grupo.
Isso muitas vezes fica evidente nos acordos internacionais resultantes de
diálogo entre as Igrejas. Foi o que aconteceu quando católicos e luteranos se
uniram em 1999 para discutir a questão da justificação pela fé ou pelas obras,
que estava no centro do protesto de Lutero. Aí produziram uma “Declaração
Conjunta sobre a Doutrina da Justificação”. O método usado pelas duas Igrejas
foi o chamado “consenso diferenciado”, que funciona assim: primeiro os dois
grupos afirmam em que estão de acordo sobre um determinado tópico; depois, cada
grupo diz o que valoriza mais dentro daquele assunto – e aí aparecem as
diferenças. Com isso, o texto ajuda a perceber que há uma crença básica de
fundo, vivida com ênfases diferentes e, com isso, facilita o caminho para
futuros diálogos.
Esse tipo de acordo acontece quando as duas partes de fato querem se ver
como caminhantes na direção de um objetivo comum. O objetivo é a grande
motivação, algo que permite a caminhada em conjunto, mesmo se cada um vê a
paisagem a seu jeito. Não há mistura, desvalorização da própria identidade,
salada de idéias (isso seria um desastre!), o que há é um companheirismo
respeitoso, que reconhece que há diferenças importantes mas que também é
possível um certo tipo de cooperação em algumas áreas. É desse jeito que
queremos viver o ecumenismo. Se as diferentes Igrejas cristãs se entendessem
fraternalmente poderiam colaborar umas com as outras e oferecer ao mundo um
panorama mais amplo do cristianismo.
O livro “Cruzando o limiar da esperança” traz uma bela coleção de
respostas dadas pelo papa João Paulo II às perguntas feitas pelo organizador do
texto. Uma dessas perguntas era: Por que o Espírito Santo teria permitido
as divisões entre os seguidores de Cristo? O papa diz que haveria duas
respostas possíveis. “Uma, mais negativa, vê nas divisões o fruto amargo dos
pecados dos cristãos. A outra, pelo contrário, mais positiva, é gerada pela
confiança Naquele que tira o bem até mesmo do mal, das fraquezas humanas: por
isso não poderia ser que as divisões tenham sido também um caminho que levou e
leva a Igreja a descobrir as múltiplas riquezas contidas no Evangelho e na
redenção operada por Cristo? Talvez tais riquezas não pudessem vir à luz de
maneira diferente...” Quando li isso fiquei imaginando que a unidade final
seria como um encontro de caminhantes que, tendo começado no mesmo ponto,
acabaram chegando ao mesmo destino tendo percorrido estradas um pouco
diferentes: todos poderiam partilhar as descobertas e paisagens do caminho que
cada um seguiu. João Paulo II diz também, referindo-se à sua missão de papa: “A
tarefa de Pedro é procurar constantemente os caminhos que servem à manutenção
da unidade. Por isso, ele não deve criar obstáculos, mas procurar caminhos.” No
mesmo texto, ele já havia afirmado: “O respeito recíproco é uma condição
preliminar para o ecumenismo autêntico.”
Para que a esperança expressada na resposta do papa se concretize temos
que viver e ensinar a viver uma espiritualidade de diálogo, com total preservação
do essencial que vai garantir a unidade, e com respeito à diversidade que pode
ser sinal de riqueza em vez de divisão, tudo isso cultivado com sólido
conhecimento da doutrina, fidelidade ao que a Igreja nos pede e prática do
evangelho.
Therezinha Cruz
Postado por Bíblia e Catequese